terça-feira, 25 de março de 2014

[119]



Tateio a tua caligrafia
Em busca da palavra.
Tropeço nas letras
De mãos dadas
Que me enredam
Na armadilha
Do ilegível.
Explícita
A caligrafia se abre
Como duas conchas
À língua pérfida
Do meu desejo
De poesia.

quinta-feira, 20 de março de 2014

01.



Pisarei em falso
até que
o salto alto
queira meu corpo
domar.
E me tirar o chão
como se
amorosamente
afastasse a razão.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mãos gagas



Sinto as mãos gagas e estranguladas. Asfixiadas pelo silêncio. Afogadas na torrente de palavras que tentam, em vão, dizer.
Sinto as mãos gagas, esmagadas pela pulsação do coração. Disritmia e solidão. O inescapável, a loucura, o arco esticado antes do disparo da flecha.
Sinto as mãos gagas a segurarem objetos que incessantemente escapam e se espatifam no chão que não é de estrelas, é de cacos. Gagueira cacofônica que arranha a superfície lisa que jaz fora do ato, atemporal e terna.
Não sinto mais as mãos esmagadas que se esmeram em gestos afoitos. Afastadas do coração, gesticulam pensar a impunidade do ato. Como a mão que dedilha o piano e arranha as cordas do coração vagabundo.
Não sinto mais as mãos que vasculham o lixo no afã de encontrar alento, que tateiam no escuro e acariciam sombras, que se movimentam atônitas no vazio. Não sinto mais. Pressinto.
As mãos crescem como raízes, sem destino e ferrenhas, crescem como ramas, terrenas. Invejam as tramas das teias, aéreas.
As mãos se agarram gagas e afagam a intemperança dos gestos perdidos no fazer. Sôfregas percorrem o submundo dos lençóis. No corpo desnudo rabiscam linhas tortas e espalmam o universo como quem colhe um verso entre as folhas perdidas do caderno de caligrafia.
Sinto as mãos e elas são velhas, borradas pelos acessos de esquecimento. Elas tremem e temem. As mãos  manuseiam, manipulam e saltam sobre a espada e o abismo como quem não tem medo de morrer ou matar.

domingo, 7 de outubro de 2012

[26]


Quero palavras
que amordacem

a dor
Sequestrem

A lembrança
Façam um haraquiri

No amor
E despetalem

O mal me quer
Até que não sobre

Nem o bem
Nem o mal

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

[25]

Às vezes
Navego turbulências
É tempestivo.
Às vezes
Submersas intransigências
É digestivo.
Às vezes
Na superfície
Respiro
É afrodisíaco.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

[quem tem sussurros vai a Roma]

Uma palavra alvoroçada
Quer sair de dentro de mim,
transversa
Quer sinuosidade,
intempestiva
Quer vendaval,
calada
Quer rebelião,
prisioneira
Quer libertinagem,
estrangulada
Quer exalar tempestade.
Uma palavra sem dono
errante
Quer segredar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

[23]

Estilhaço vidro
Com palavras
Que sangram
E singram
No mar
No ar
Cerol.
Palavras cortam
Dilaceram
Reparam
E no ar
Gaivotas
Bandeiras
Pandorgas
Esvoaçam passageiras
Mergulham marinheiras.