sábado, 4 de junho de 2011

Contrapelo

A vida corre áspera a contrapelo. Os olhos destilam cansaço e teimosia em não chorar. Tudo é secura no sertão do meu desconsolo. É a solidão na latência do meu não. A sensibilidade inteira guardo na mão fechada, corpo trincado de tanto aguentar o tranco até não suportar mais trancar. A mão não vale um pássaro voando e os pés são raízes grossas fincadas na terra dura da provação. Retirante de mim mesma eu embarco no pau de arara da ilusão.
Eu preciso de um trago e de uma canção, de um filme que enrede os afetos volúveis do meu corpo sem paradeiro, sem fio terra, indestinado como uma pulsão. Eu preciso de ti. Eu não me basto em mim.
Olho indiferente o olho que me vigia. E escuto com ouvidos moucos a voz que aterroriza o momento de distração, o meu descuido. O esquecimento é cansaço e eu luto em vão contra as explicações, o entendimento do senso comum, a culpa moeda de troca no mercado das decepções. Enquanto isso a paranoia me espreita, solapa a noite e se deita ao meu lado no escuro do meu medo. Deponho as armas e acolho o desespero. Que é um sapo entalado na garganta do meu grito calado.
Preciso da força que perdi, da teimosia que desperdicei no exercício da complacência comigo mesma, com o policial infame, nas relações aviltantes corruptas e corrompidas. Ah, o insulto que não proferi! Ah, as palavras que não escrevi! E se eu tivesse gritado, e se eu tivesse me indignado a ponto de me expor indefesa e raivosa diante da fila interminável dos complacentes? E se eu não tivesse sido condescendente, talvez o cansaço não me tivesse abatido e o esquecimento não se instalasse como aquele véu mortiço, anestesia letal da dor.
As passagens estreitas me fazem olhar para o infinito. As passagens estreitas me fazem desviar os olhos do dedo (que me acusa) e contemplar a estrela (que me redime).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Corrosão

Costura com o fio de aço da sensibilidade os farrapos do acaso que o olho peneira na trama fina do filó; remenda a seda macia do desatino com fiapos de razão, faz com os devaneios alucinados e crus do desejo uma colcha de retalhos. Pinta e borda a armadura da solidão.
Verte a sensibilidade ácida e corrosiva no ante oxidante do tempo. E deixa a pura ferrugem envergar o tesão e depor as armas sobre o cadáver ultrajado do guerreiro.
Sutura a minha pele dilacerada pela separação com a agulha pontiaguda da tua bússola desnorteada. E aquieta na tempestade do mar a calmaria do meu desespero.
Quando eu tentar me matar puxa como um titereiro o fio de aço com que seguras as rédeas da minha égua selvagem. Encena e insinua o prazer da primeira cavalgada. Mas não me faz voltar. Empina meu corpo como uma pipa no mastro da tua loucura e pela última vez me faz gozar ate (que) a morte (nos separe).

sábado, 7 de maio de 2011

Beija mão

Morde e assopra. Um arrepio horripilante separa o devaneio da vigília. Quando se fez a luz o mundo explodiu em sombras e o vermelho destilou amargura no pulso que não pulsava mais, azulava. Era a natureza soberana igual a si mesma e prisioneira do eterno retorno que submetia o meu olhar, mobilizava os sentidos e me deixava livre para ser senhora da dor.
Era um auto retrato? Era uma luva irreal que a pele da cobra escondida, o espelho deformado do mundo (des)encantado. Tudo guardado num barracão no Caju, perto do Encantado e à beira do mar.
Ele sugava sôfrego o instante. Ou se aproximava curioso da mão monstruosa do tempo no intervalo que separa a vida da morte. O cadáver ultrajado não reconhece o herói. O cadáver ultrajado é o testemunho da pegada maldosa do guerreiro. A infâmia de possuir o corpo morto do inimigo macula o herói com uma glória fugidia, anônima, calada e secreta como os sentimentos mais perversos que guardamos no fundo imundo da imaginação, no canto impuro da danação, no beco escuro e indigente dos amores perdidos e iluminados pelos fogos fátuos da paixão.

terça-feira, 26 de abril de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

Escrita sem lei

Minha escrita tem a feminilidade do travesti, a abstinência sexual do devasso, a virtude de ser pagã, o anonimato das obras infames, o pudor impertinente da puta iniciante e vaga no mundo vagabunda como os que escolhem a deriva.
Escrita que tatuo na retina de quem me lê, que sai na urina, que é feita das ruínas do meu sentir, abstrato e órfão, exercício insensato da razão perdida. Assim escrevo como quem mendiga um leitor. Uma pedinte que cobre o corpo com os andrajos sujos da própria escrita. Homeless sem texto. Coração de ferro que oxida sob a intempérie da inspiração baldia e urbana.
Disparo minha escrita sobre quem me lê, como se fosse um terrorista, uma mulher bomba em sua burka de textos esconderijo. Seqüestro tua atenção presa ao sentido e te faço refém do meu silêncio maldito, povoado de imagens fora da ação e da lei. Aqui na calada do texto você pode adormecer ou ser sacrificado.
Não escolha nem pense apenas leia como quem sorve um trago forte de aguardente. É o suplício. Deixa o meu texto arder na tua garganta até descer como um sapo goela abaixo. E te inundar o ventre de uma diarréia de sêmem em decomposição.
Assim é o meu texto: uma vagina ácida e latente. Cada palavra que ergo bêbada sobre o balcão decadente do pé sujo escorre líquida como os amores modernos. E o balconista limpa aflito e impaciente com um pano que fede a palavras apodrecidas e amores desiludidos.
A mulher bomba tomba no balcão de fórmica e alumínio, entre ovos cor-de-rosa e um pedaço de carne antiga que bóia em meio a cebolas, azeitonas e pimentões. É como se a missão terrorista de que era autora se desmanchasse no ar como um gozo prematuro ou o gozo que escapa na hora “h”, a hora da estrela decadente. Bomba desarmada, escrita degolada pela guilhotina do senso comum, ela diz alguma coisa, é difícil ouvi-la, aproximo o ouvido, é uma canção de ninar e eu, obediente, adormeço ao seu lado.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Não

Não quero tua impossibilidade de amar, os limites, este não saber se entregar vestido de polidez e cortesia. Não quero te julgar nem explicar se é medo, se é coragem ou covardia, se é liberdade, autonomia ou servidão o que te aproxima e o que te faz me descartar. Não quero partilhar o que não é meu. Quero divisar o que é teu.
Quero a devassidão da nudez da violação das boas maneiras. A sujeira pura do sexo em quartos decadentes e com cheiro de desinfetante barato. Quero não pensar nas conseqüências e cuidar do desejo como quem amamenta um filho recém nascido. Pisando em ovos,  insegura e descobrindo o prazer da sofreguidão do sugar.
Quero palavras obscenas recobrindo a delicadeza do faro que perscruta os perfumes íntimos da minha vagina. E a mão indiscreta que percorre meu corpo como quem folheia um livro de contos eróticos. Quero a música no volume máximo depondo o entendimento. O plano inclinado e escorregadio dos abismos (in)corporais – eu e você a sós. Eu e você – samurais. Eu e você – as gueixas de lado. Toalhas mornas e o gosto pastoso do mingau que recobre a superfície estriada do estomago como um balsamo, comida para a alma, convulsão de sabores.
Não quero a tua solidão doída de esbarrar na parede do outro e escolher o atalho barato do buraco do rato. Quero a vontade de escalar e o risco de cair. A adrenalina e a depressão. A noite insone e o desespero que é o mesmo diante da intransigência do corpo e a exigência do gozo. Mas o que é o gozo se não a libertinagem – liberdade selvagem – da natureza? Que me possui sem pedir licença, sem as mesuras do amor cortês, sem disritmia.
Quero o teu defeito de fabricação, a tua impossibilidade de sustentar uma ereção, o teu cansaço, a tua hesitação diante  do convite para se perder no meu universo. Quero a impaciência e a volúpia do dominador e quero o domador de quatro perdendo a compostura na sodomia.
Quero a camisa de seda no peito aberta e as tatuagens borradas pelo destempero de amar demais e as desilusões amanhecidas como pão velho sobre a mesa do café. O café requentado e amargo como a despedida da amante preferida, já esquecida nos poemas colecionados como droga e comercializados em doses (des)medidas de amor. O amor mercadoria no boulevar das desilusões.  Ali onde a meia arrastão que vestes despe a fronteira entre o homem e a travesti que circulam nas tuas veias entupidas de gozo e morte, o teu corpo infartado e desejante.
Quero a peituda de pau duro e o teu olhar desconfiado diante da minha coragem libertina de afrontar o mundo com a pesquisa de campo que não chega a lugar nenhum, que interdita o gozo acadêmico e afoito dos bons moços de Platão. Quero a tua gargalhada depravada e ingênua como uma ejaculação precoce.
Não, não quero mais. Quero absorver e observar o que há para viver e simplesmente não te ter.  Quero o dentro e o fora que o forasteiro me oferece quando abre a capa e eu olho seu corpo nu. A fumaça do cigarro turva por instantes o encontro do nosso olhar e eu estendo minha mão que veste uma luva negra para receber a alma que o forasteiro me entrega. É assim como deve ser, sem meandros, sem ritornelos, apenas os rizomas sem meias palavras, a luz agoniza em high definition sobre a minha pele branca e (im)pura. E eu me deixo fotografar, derradeira como as folhas do outono.

domingo, 3 de abril de 2011

Água tinta

As águas correm, escorrem, escoam, derretem e evaporam, em suores, urinas, lágrimas e gozo. São doces, salgadas, ácidas e balsâmicas. Benditas irrigam a imaginação; malditas corroem a emoção. Maliciosas contaminam as fontes puras do primeiro amor.
Água viva pelo leito do rio que me atravessa. Revirada do avesso na roda gigante do engenho que tira da cana a garapa que vira doce, que revira aguardente. Água ardente que macula o paladar ingênuo do menino feito homem. Água que irriga o sertão rachado do meu coração.
Açude feito para navegarem amores ribeirinhos, passageiros como a vazante da maré. Os rios que me navegam não têm começo nem fim, são regidos pelo mar, que recebe ordem da lua, que olha de soslaio o sol, que racha a terra e o corpo do sertanejo como se fossem feitos da mesma matéria: o barro da desilusão.
Água que me inunda quando deságua de você em mim. Naquele momento sublime em que a morte se aproxima e te possui. E te depõe rei no meu ventre rainha. Água que encharca a pele esfolada pelo teu roçar exigente e pagão, como devem ser as paixões.
Que arde e cura.
Que fere e dura.
Que bate e fura.
Água que invade, vaza, infiltra e ascende pelos atalhos rasgados na epiderme do meu coração cansado de sofrer. Triste de bater em vão.
Assim navego o rio, prisioneira da nau dos insensatos. E desfilo minha insensatez imperial e senhora diante da natureza indiferente. Escrava do passar.
Na minha água de mar feita de rio você não sabe o que vai encontrar. Esse é o enigma que me decifra e te devora. São as águas de abril.